Promessas de um Arcanjo – Capítulo 13

CAPÍTULO 13 – MILAGRE

Ela tem olhos dos céus mais azuis
Como se eles pensassem na chuva
Odeio olhar para dentro daqueles olhos
E ver um pingo de dor
O cabelo dela me lembra um lugar quente e seguro
Onde como uma criança eu me esconderia
E rezaria para que o trovão e a chuva
Passassem quietos por mim
– Sweet Child O’ Mine – Guns N’ Roses

arte para promessas1

Nelly abriu a porta recepcionando os amigos e um Mikael logo atrás que parecia de bom humor. Loren deu um abraço apertado em Antonella enquanto Aaron apenas a cumprimentou com um beijo no rosto.
Mikael queria beijá-la, mas a surpresa de sua mãe vindo até a porta o impediu de fazê-lo, imaginando o constrangimento da garota. Naquela manhã, eles ainda haviam feito amor pela primeira vez nesta encarnação, embora Antonella não sentisse vergonha, um clima tenso se estabeleceu entre ambos, uma vez que não pensaram duas vezes antes de se tocarem. Eles definitivamente precisavam falar sobre aquilo mais tarde.

– Loren, meu anjo, como está?

Perguntou a mãe de Antonella beijando a garota miúda, em seguida beijando também Aaron.

– Estou bem, será que posso te ajudar na cozinha?
– Oh, claro meu bem!

Finalmente a mãe olhou para Mikael, notando o olhar forte que ele mantinha com a filha.

– E este, quem é, Nell?

Perguntou ela.

– Este é Mikael.

Respondeu envergonhada sem saber ao certo como apresentá-lo.

– É um prazer, Mikael!

Ela o cumprimentou com um beijo no rosto também, era uma mulher carinhosa e sorridente.

– O prazer é meu!

Respondeu ele simpático e sorridente.

– Cuide bem da minha pequena.

Ela piscou para o casal jovem e se retirou com Loren e Aaron antes que Nelly pudesse protestar. Mikael aproximou-se da garota e a envolveu com seus braços, mantendo o rosto dela sobre seu peito aquecido, o que a confortou.

– O que aconteceu hoje…
– Não se preocupe, foi sua primeira vez, nada vai acontecer.

O anjo a beijou na testa transmitindo sua confiança, embora Nelly ainda sentisse que algo estaria para acontecer, mas ela não se arrependia e até se arriscaria a uma terceira, quarta, quinta, quantas vezes fossem necessárias para ter Mikael e aquela sensação gostosa da pele quente dele aquecendo a sua. A sensação da sua boca faminta procurando a dela freneticamente. Ela amava Mikael em tão pouco tempo que achava que tudo aquilo fosse um sonho, ela só não queria que o sonho virasse um pesadelo.

– Querida?

O pai de Nelly interrompeu aquele momento tão constrangedor entre os dois. Mikael apressou-se em cumprimentar o homem enquanto Nell quase pegava fogo. Logo os dois homens que ela tanto amava estavam numa conversa acalorada sobre poemas, Shakespeare e Edgar Allan Poe. Os três subiram para o escritório e Mikael tentou um encantamento para fazer o pai da menina esquecer de tudo que ocorrera na noite passada, o que não funcionou por um segundo e isso o deixou com uma pulga atrás da orelha. Seus poderes não estavam enfraquecidos e sempre deram certo, mas daquela vez era diferente e ele não só podia ver, mas como sentir, alguma coisa estava mudando e não era o clima frio de Londres.

– Pai!

Chamou Nelly.

– Sim, querida, diga!
– Eu quero guardar esse pingente no cofre.

Ela abriu o fecho da fina corrente dourada que carregava a chave do portal em seu peito. O pai a olhou sério e depois olhou para Mikael que afastou-se e sentou-se numa das poltronas mais afastado. Antonella acompanhou o pai até o cofre, ele o destrancou e ela colocou dentro do cofre o pingente. Depois ele a chamou de canto e lhe confidenciou um segredo.

– Querida, eu achei mais algumas coisas que quero que veja depois.
– Como?
– Achei mais um diário, mas não o abri ainda. Vou pesquisar um pouco, seria bom se levasse Mikael para conhecer a casa. Depois eu te chamo.

Ela apenas assentiu, afastou-se e chamou Mikael para se retirar do escritório, que com um aceno ao pai de Nelly deixou o recinto sem nenhum problema.

– Ele gostou de você!

Revelou a garota.

– Você acha?
– Sim, vocês logo se envolveram em uma conversa que eu jamais esperaria.

Ele riu, e nisso Antonella o levou para o jardim nos fundos da casa onde sentaram-se num banco de pedra. Nelly apoiou seu rosto no ombro do anjo.

– Diga-me Mikael, onde gosta que eu te toque?
– Se eu te disser, você não vai rir?

Ela o encarou com uma careta sem saber o que pensar, ele riu alto e depois segurou-lhe a mão.

– Calma, não é nenhum lugar inusitado! Deixe-me mostrar.

Os olhos concentrados dele, cintilantes, encontraram os olhos concentrados dela, na cor do ouro. Ele levou as mãos dela para seu peito para que sentissem as batidas fortes de seu coração e depois deslizou as mãos dela até suas escápulas, onde saíam seus enormes troncos fortes e grossos que expeliam as penas mais macias que algodão para fora. Era onde ele mais gostava de ser tocado e ela percebeu. Colocou as mãos por debaixo do casaco e da camisa dele e tocou a pele de suas escápulas, massageou com carinho e quando ergueu o queixo para encará-lo e ver a expressão de seu rosto que estava serena, ele tomou-lhe a boca em mais um de seus beijos quentes e profundos. Era em um desses beijos que Nelly sentia todas as suas vidas concentradas nela entrando êxtase, ela podia sentir todos os sentimentos dele por um único beijo e ele era capaz de ouvir a música que ressoava dela quando a beijava. Sensações que formigavam todo o corpo de ambos. E quando fizeram amor ainda naquele dia, era como se tornassem um só, era como se completassem um com o outro. Era muito mais do que sensações e prazer, era a troca necessária, a dose diária do vicio. Eles eram a droga um do outro e tanto Antonella quanto Mikael não sabiam se podiam sobreviver um sem o outro.
Quando se afastaram, uma chuva incessante começou, o que os fez voltarem para dentro do casarão, já estava escuro e a mãe de Nell já chamava todos para o jantar. Mas foi quando o pai da garota voltou-se a sala de estar, foi que todos perceberam que algo estava errado. Ele estava pálido, segurando um exemplar de couro nas mãos e trêmulo. Ele encarava Mikael com espanto.

– Antonella!

Ele chamou a filha que estava estática ao lado do anjo e ela encarou Mikael por um segundo, sem entender o que aquilo significava. Agora todos se encaravam tensos.

– O que foi papai?
– Saia de perto dele, ele não é bom, Antonella, veja.

O pai lhe mostrou uma foto do Mikael com a Antonella dos diários, lado a lado, mas afastados um do outro, e ela ao mesmo tempo que parecia controlada, parecia ensandecida. Mikael tinha nas mãos um punhal de ouro.
A garota pegou a foto das mãos do pai encarando aquilo com os olhos surpresos.

– Veja este trecho!

“Ele quer me matar, quer acabar comigo de uma vez por todas para que eu não volte nunca mais. Eu o amo, mas ele quer me matar e isso machuca. Por que Mikael, por quê? Eu te dei tudo! Por que quer acabar comigo assim? E eu sei que em todas as nossas outras milhões de vidas, essa droga de ciclo sem fim, você nunca quis isso, então por que agora?”

A página se enegrecia, havia manchas de sangue nas folhas e riscos negros sobre as frases distorcidas e arranhadas. No trecho seguinte dizia:

“Quando o sol se por no último dia de inverno, eu estarei morta pelas mãos sangrentas dos anjos. Mikael é um anjo caído que há séculos está andando com sua aparência jovem. Ele veio para a destruição e não tardará a retornar quando minha próxima versão voltar. Ele vai tomá-la para si como tem me tomado dia após dia.”

E outra foto de Mikael, uma empunhando uma espada, estava pregada entre as páginas.

– Nell, ele não é quem você pensa que é e você tinha razão quando disse que talvez Antonella não fosse louca. Ela estava lúcida quando morreu, ele a matou.
– Não!

Protestou Mikael.

– Não! Não! Não!

Prosseguiu.

– Mikael, você…
– Não, Nelly, você sabe a verdade, por favor!
– Você… me matou?

Perguntou ela, já sentindo os olhos se encherem de água.

– Pelo amor de Deus. Como isso ainda pode piorar? Antonella, eu não matei você em nenhuma de suas vidas e seu pai está louco se acreditar nas palavras dessa outra versão mais louca de você.
– Fique longe da minha filha!

O pai de Nelly se colocou na frente dela, mas a garota não tinha forças para impedi-lo e nem para enfrentar Mikael.

– Nelly, deixa eu explicar, por favor!
– Mikael, eu me entreguei a você, eu me declarei a você e estava confiando em você, mas desde que você chegou, minha vida está em transtorno. Primeiro você queria tomar a chave, agora os diários dizem que você queria matá-la. Eu não…
– Loren! Aaron!

O anjo praticamente implorou por uma ajuda a mais, mas os amigos e anjos da guarda de Antonella simplesmente se afastaram.

– Ouçam, eu sou sim um anjo caído, não estou aqui para tomar Antonella. – Riu. – E nunca tomei ela, ela sempre se entregou a mim e eu sempre me entreguei a ela, nem sei o que essa ultima frase quer dizer, ela nem morreu no inverno naquela época, foi no outono. Nunca a matei e nunca quis matá-la por que perdê-la significava minha própria morte. Acontece que estávamos trabalhando juntos naquele maldito convento, um lugar seguro para você, amor. E você ficou louca por que não podia sair e constantemente estava no escuro, e pra variar eu sucumbi a voz do inferno que me mandava abrir o portal. Isso fez um mal terrível pra você, Antonella. Eu não fui forte e agora o rei quer passar pelo portal, tomar a sua alma, matá-la de uma vez por todas e me acorrentar. Ela se tornou uma mentirosa. Esses dois imbecis do Aaron e a Loren sabem muito bem disso e não querem dizer nada por que pra eles sabem que você nunca terá fim quando não estiver comigo.

Ele abriu as asas com força que chegou a arder sua pele. Antonella o observava atenta e com os olhos ainda cheios de lágrimas.

– Quantas vezes será necessário te dizer que eu te amo e que foi por você que eu sou assim? Eu caí por amor a você. Tem noção de quanto tempo eu tento achar uma maneira de quebrar sua maldição? Eu te amei até quando estava louca e tentava se matar e colocava a culpa em mim. Eu cuidei de você, embora nunca fosse capaz de salvá-la.

Todos o encaravam atentos, ela parou de se esconder atrás do pai que a segurou pelo pulso. Ela assentiu ao pai e se aproximou de Mikael. Ele passou o polegar pela face molhada dela e a abraçou forte.

– Eu jamais te mataria. Quando ela escreveu “ele está vindo”, ela queria dizer sobre o rei, que o rei estava vindo. Ela tinha sonhos e visões proféticas imaculadas pela loucura. Eu tentei salvá-la, mas ela conseguiu se suicidar e a culpa caiu toda sobre mim. E acredite, ela era feliz quando nos conhecemos, ela amava a irmã e a irmã também a contaminava. Eu juro que tentei e doeu demais.

Ele se afastou e deu as costas, abriu a porta de entrada e alçou voo sem dizer mais nenhuma palavra. Se ela acreditaria ou não, agora estava nas mãos dela. E Antonella pegou os outros dois diários, todos subiram para o escritório e começaram a ler página por página para compreenderem o que aquilo significava. Os pais da garota ainda se encaravam incertos.

– Ele tem razão!

Disse Loren, por fim.

– Loren!
– Não, Aaron. Ele tem razão, estamos deixando ele enfrentar a inquisição sozinho quando nós também não fomos capaz de nada e temos tanta culpa quanto ele. Vocês precisam acreditar que Mikael sempre foi diferente com Nelly, ele a amava de uma forma que ninguém é capaz de imaginar, e ele foi sincero quando disse que sofreu com todas as mortes. Mas eu tento entender as palavras de Antonella, elas não condizem.
– Ela não estava louca!

Murmurou Nelly.

– Talvez não, querida, talvez não. Talvez ela só quisesse dizer algo que ainda não compreendemos.

Finalizou Loren com um olhar solidário à amiga entristecida.

– Eu não confio nele, todos esses anos fomos enganados por nossos antepassados achando que a menina era louca, e aqui está a verdade, os anjos realmente existem.
– O que vai acontecer?

Perguntou Nell com uma nova preocupação surgindo.

– Os meus pais agora sabem sobre vocês, o que vai acontecer?
– Não se preocupe, eles não correm perigo. Mas você corre, Nelly.

A garota levantou os olhos para Aaron. Ele aproximou-se e agachou na frente da amiga tocando seu baixo ventre.

– Vocês dormiram juntos, há vida aqui e essa vida significa muito. Você precisa ficar em Ashford, precisa proteger essa vida.
– Como…?
– Isso é um milagre, Nelly, você será perdoada e viverá com Mikael se essa vida conhecer as cores.

Os pais não a encaravam condenando-a, pelo contrário, eles estavam emocionados com a profecia de Aaron. Um milagre, era isso então?

– Nós vamos te proteger, e Mikael dará seu sangue para que esse novo ciclo se conclua.

As lágrimas tornaram a descer pelo rosto da garota. Ela chorou um choro agudo e doloroso, ela não sabia o que fazer, mas certamente seus anjos da guarda saberiam.

♦♦♦

NOTA: Deus mandou um sinal de que Antonella finalmente pode por fim ao ciclo sem fim que tem trazido-a à vida e levado-a à morte. Mas isso pode ser um sinal de que também o senhor do inferno pode significar um grande perigo. E os diários? Qual a peça chave que está faltando para que o quebra-cabeças se conclua de uma vez por todas?
Espero que tenham gostado deste capítulo e continuem acompanhando para saber o que vai acontecer nesta história. Um beijo pra quem fica e até a próxima ❤

Promessas de um Arcanjo – Capítulo 12

CAPÍTULO 12 – ESPIAÇÃO

Eu queria ser como você
Facilmente entretido
Encontrar meu ninho de sal
Tudo é minha culpa
– All Apologies – Nirvana

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O ar silencioso da manhã inundava os pulmões do grupo que andava nervosamente quadra por quadra em Londres. Nell sentia seu peito pesado. Uma fina, porém, densa névoa, se fazia presente aos seus pés e ela queria lutar contra o sentimento taciturno ansioso que se estabelecera em seu corpo. Cada músculo, arrepio, fio de cabelo estavam tensos. Não havia dormido o suficiente e havia mais preocupações do que poderia imaginar. Ela não queria lidar com aquilo agora, ou melhor dizendo: nunca.

– Nelly, por que está correndo?

Mikael a segurara pelo braço a fazendo parar, Aaron e Loren apenas observavam logo atrás.

– Não percebi!

Foi a resposta dela. Mikael a soltou pensando estar fazendo força demais em seu braço que pudesse machucá-la. Passou as mãos pelos cabelos compridos e suspirou como se tivesse perdido uma batalha.

– Antonella…

Ele a chamou voltando-se para o olhar triste e preocupado dela, um pouco cansado.

– Eu estou cansada. Por Deus, preciso dormir um pouco e colocar os pensamentos em ordem porque tudo está uma bagunça, Mikael.

Ela o encarou com um brilho nos olhos que ele já vira antes, era uma mágoa, culpa, muito grande que ela sentia, era como se suplicasse. Ela sempre tinha aqueles olhos e Mikael sentiu-se nostálgico por se lembrar e deixar-se levar pela lembrança de todas as vezes que ela usara aquele olhar quando algo era insuportável.

– Mikael!

Chamou Loren colocando a mão no ombro do anjo.

– Cuide dela, nós conversamos com as irmãs.

Mikael assentiu para a não tão desejada amiga e aproximou-se de Nelly com um calor que fez a garota corar. Ele a abraçou, colocou seu rosto diante do seu peito e ela se acalmou ouvindo aquele som forte como um trovão, embora calmo.

– Feche os olhos, querida.

Ela obedeceu, embora depois de todo o ocorrido não confiasse muito em Mikael. Ainda assim, deixou-se levar. Ele a tomou no colo, ela estava ávida por ele, com o rosto na curva do pescoço dele, sentindo aquele cheiro suave e fresco que a pele dele exalava. Ela tocou o peito dele, beijou-lhe a pele desnuda do pescoço. Ele alçou voo como um pássaro em luto, ela amou a sensação das nuvens em suas mãos, da liberdade, de seu corpo flutuar junto dele.

– Que sensação gostosa é essa, Mikael?
– Isso, amor, é quando você se apaixona por um anjo.

Ele pousou nos fundos de Ashford onde ninguém poderia notar as asas enormes de Mikael e uma Nell semi acordada, com o corpo esgotado de uma noite cansativa. Ele a levou para seu quarto e a deitou em sua cama, tirou os sapatos e o casaco dela, deixando junto de seu próprio casaco na cadeira da escrivaninha. Ele foi até o banheiro e se encarou no espelho notando uma expressão triste e profunda em si mesmo. Banhou o rosto em um pouco de água gelada da torneira velha e quando passou a toalha pelo rosto reparara que Nelly havia se levantado.
Mikael voltou ao quarto preocupado e viu os olhos profundos dela demorarem-se sobre a chave que seguia de seu pescoço a palma de sua mão.

– Nelly!
– Você não pode pegá-la se eu não der permissão, não é?
– Você não confia em mim.

Ele aproximou-se e sentou ao lado dela. Tocou a chame na palma da mão dela, depois a retirou de seu pescoço, como se quebrasse o encanto.

– Entenda, eu posso pegar e tirar essa chave de você quando quiser, Nelly. Mas do que adiantaria se não pudesse usá-la?
– Por que você a quer, Mikael?
– Quando a criei, estava construindo esse convento, para que fosse um lugar seguro pra você. Alguns anjos de Deus desceram e ajudaram a construir, precisávamos de um portal que nos desse acesso ao outro lado, por que atravessar as sete camadas espirituais era doloroso, sabíamos que haveria consequências. Por exemplo: a mesma porta que abre para o paraíso, também pode ser aberta para o inferno. Se abrirmos essa porta não sabemos o que pode passar por ela. Eu queria destruir a chave para que nunca mais fosse usada, por que a ultima vez eu caí na tentação e abri o portal, eu deixei muitos anjos caídos atravessarem e esse foi um dos motivos da sua morte e tormento, e muitos anjos de luz ainda estão presos aqui.Eu queria caçar todos eles e os mandar embora antes de destruir a chave. Destruindo a chave eu destruo o portal, e nunca mais vemos um anjo sequer. Por isso eu quero a chave, Nelly, não pra te prejudicar.
– E se você cair de novo?
– Olha, eu ouço a voz do inferno sempre, eu escuto seu sussurro na minha cabeça me ordenando, ele diz agora que devo pegar a chave a trazê-lo a este mundo. Mas eu não vou, não vou obedecer e sou forte o suficiente pra isso, por que já iniciei o caminho para o perdão. Estou aqui para ser perdoado. Acima de tudo, proteger você. O problema Nelly, é que todos podem tocar a chave, mas só quem a possui pode usá-la. Eu tenho medo que alguém te force a usar.
– Há algum lugar em que eu possa guardá-la?
– Seria bom se nunca tivesse sido achada.

Ele colocou o pingente de volta ao pescoço da garota, passou a mão na frente dele sobre seu peito e o formato se mudou, transformando-se num coração. Nelly achou aquilo incrível.

– Isso deve bastar! Deve ser um segredo entre eu, você, Loren e Aaron, ok? Se mais alguém souber sobre a chave, corremos perigo.
– Meu pai a viu!
– Certo, hoje a noite ele não saberá da existência dessa chave, eu o farei esquecer.

Nelly assentiu sentindo-se menos preocupada, mas ainda preocupada. Mikael a deitou sobre a cama, seus olhos estavam sobre os dela e os dela sobre os seus.

– Confie em mim!

Ela apenas assentiu engolindo em seco, sentindo toda a tensão de seu corpo transformar-se em outra coisa.

– Dorme, descansa, e não se preocupe com as aulas, teus amigos vão te ajudar.

Mikael afastou-se, mas Nelly o puxou com força e o beijou avidamente, sentiu o corpo dele estremecer, mas não se importou com o medo que assombrava o anjo. Assim era ela sempre, gostava de correr riscos sem se preocupar. Ele afastou-se do beijo quente tocando-lhe o rosto com a palma da mão.

– Onde você pensa que vai, Mikael?
– Você quer que eu fique?

Os olhos dela percorreram os dele, chegou aos lábios, mas só se deteve no primeiro botão da camisa dele. Ele percebeu seu olhar.

– Ouça…
– Não!
– Nelly…
– Não, Mikael!
– Só quero dizer que vou ser cuidadoso com você, não precisa ter medo, tudo bem?

Nell desviou o rosto corada, ele a puxou pelo queixo e a afogou em seus lábios, depositando seu peso sobre o corpo dela enquanto ela percorria as mãos pelas costas dele por debaixo da camisa. A pele dele era macia, dura e quente. Podia sentir o dourado de sua pele que a deixava sem fôlego.
Então ele tirou primeiro a camisa dela junto do sutiã, ela tentou se esconder do olhar dele, mantendo-o colado a ela nervosamente. Ele riu sobre os ouvidos dela. Se ela soubesse quantas vezes já a tinha visto nua, se ela soubesse como a achava linda de corpo inteiro, como a amava de corpo inteiro, jamais se esconderia.

– Não tenha vergonha de mim.

Ele lhe beijou, tomou-lhe, sugou-lhe os lábios e depois se afastou dando uma boa olhada nos seios desnudos. Redondos, volumosos e corados. Ela apreciava o olhar de satisfação dele, mas não podia sustentá-lo, sentia vergonha, e não por que se achava feia, sabia que era linda, mas por que ninguém nunca tinha a visto daquela forma. Sensível, como viera ao mundo.
Mikael tocou cada seio com a costa da mão e ela se arrepiou, ele riu novamente, livrou-se de sua própria camisa e desceu pelos pés a saia dela junto da meia grossa e a calcinha. Livrou-se de sua calça e puxou o edredom sobre seus corpos nus que tocavam-se sem pudor, mas com carinho, com o nobre amor que ambos sentiam um pelo outro.
Nelly não sangrou, não sentiu dor, os toques dele, os beijos dele a levavam para um mundo só deles que não existia em lugar algum. Não havia espaço para mais nada, ali, naquele curto tempo para respirar.
Ele abafava os gemidos de ambos em beijos desesperados e molhados em algo que parecia durar eternamente. Eles queriam alívio, mas toda vez que ele vinha, eles queriam mais.
Quando acabou, Nell dormiu, mais cansada do que nunca, ela dormiu o sono dos deuses até a hora do almoço agarrada a um Mikael que enchera seu corpo de amor, preenchendo-o com vontade com o seu próprio. Ele estava feliz, aquilo nunca deixava de ser especial, ele lembrava-se de cada noite, cada vez que deitara-se ao lado dela.
Ela abriu os olhos deparando-se com o corpo desnudo do anjo. Ela poderia achar mil descrições para ele, dizer que era alto e forte. Mas naquele momento o observava, tentada, cada curva de seu corpo. Ele estava dormindo com uma mão sobre o abdômen enquanto o outro braço se dobrava acima da cabeça. Suas pernas esguias estavam esticadas, e o membro ainda inflado pelo tempo de sexo.
A pele do anjo estava quente, mas ela pensou que talvez ele sentisse frio, e ela estava enrolada em todos os lençóis, roubando-lhe o calor. Aproximou-se mais e colocou todos os cobertores sobre o corpo dele, beijou-lhe delicadamente os lábios e levantou-se indo para o banheiro.
Separou uma toalha grande e abriu a torneira do chuveiro. Era velho, mas aquecia e tinha um bom nível de água. Ela ensaboou o corpo, lavou os cabelos com o xampu dele e quando virou-se depois de desligar a água, deparou-se com o olhar de Mikael que a observava.

– Achei que estivesse dormindo.
– Você levantou, Antonella.
– Não ia te deixar.
– Eu sei.

Ele caminhou, nu, na direção da garota, a empurrou de volta para o chuveiro e abriu a água enquanto a beijava, deixando-se molhar pela água quente que lambia a pele de ambos.
Finalmente quando se afastaram, ela tocou-lhe o peito com carinho e beijou seu coração.

– Vai ficar tudo bem!

Ela lhe tranquilizou. Ele apenas assentiu, acreditando sempre nas palavras dela.
Nelly saiu, deixando que ele se lavasse, enrolou-se na toalha e foi para o quarto se vestir. Mikael não demorou a vir atrás, ela arrumava a cama enquanto ele se vestia.

♦♦♦

NOTA: Galere, capítulo curtinho essa semana por que não deu muito tempo para escrever mais, mas prometo compensar quem tem acompanhado Promessas de um Arcanjo na próxima semana. Então perdoa a tia #nini e não desiste que tamo junto >> Estação Imaginária <<< e não deixem de conferir. Adiantando um pouco a novidade: é um sorteio que estamos realizando pra quem ama livros!! Bora?

Promessas de um Arcanjo – Capítulo 11

CAPÍTULO 11 – CLAW

Eu adoro a maneira como me sinto hoje
Mas como eu sei que o sol desaparecerá
Dias sombrios parecem ser
Os que sempre viverão em mim
Mas eu ainda corro
É difícil trilhar este caminho sozinho
Difícil saber qual caminho seguir
Irei uma vez salvar esse dia?
Um dia isso irá mudar?
Irão eles abrir os olhos
E perceber que somos um só?
– Open Your Eyes – Alter Bridge

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Naquela noite, Nelly não havia conseguido nem se juntar ao jantar com sua família, o que resultou numa visita repentina de seu pai no quarto, onde a encontrou analisando cada parte dos dois diários a sua frente. A garota assustou-se quando se deparou com o pai a observando sem piscar.

– Nelly, sei que está curiosa, mas não pode deixar isso te afetar.
– Pai, tem algo de muito errado!

Richard, imediatamente aproximou-se da filha na cama e olhou para os dois diários.

– Querida, o que é isso?
– Pai, esse primeiro – indicou a garota – eu encontrei na biblioteca de Ashford. Uma das irmãs disse que estava destinada a encontrá-lo, mas assim que comecei a ler, fiquei completamente absorta por ele. É envolvente, a Antonella, ela realmente acreditava haver anjos entre nós. O homem com que ela se envolveu, como disse sua irmã, ele não era um bruxo, mas sim um anjo caído, segundo a Antonella. Mas está tudo diferente, por que neste primeiro ela o descreve com amor, carinho, uma atração incrivelmente acima do normal, ela o estudava, o analisava. E, neste segundo, realmente, ela parece uma louca. Veja esta página.

Nelly virou as páginas do diário até encontrar as páginas com a mesma sentença. Ele está vindo. O pai ficou sem fala ao ver aqueles escritos.

– Aqui, ela descreve um grande perigo vindo, um perigo que ninguém é capaz de deter. Nem mesmo o grande amor dela. Ela parece abatida, solitária, com uma mudança de temperamento muito grande, tem hora que ela parece com raiva e ansiosa.
– Querida, você quer ir pro escritório?
– O que há no escritório?
– Podemos levar tudo isso lá e analisar com mais cuidado.
– Pai, eu não sei como as coisas eram, mas Antonella Pierce, minha tia avó, não era louca como Eliana disse. Eliana estava tentando levar com ela pro túmulo alguma coisa que Londres desconfiava e não podia saber. Como que pra abafar o assunto.
– Você não acredita, não é? Que esses tais anjos possam existir?
– Talvez uma metáfora de Antonella?

Nell mordeu os lábios, tentando disfarçar o que já sabia e tomava como verdade, por que constantemente ela via as asas de Mikael. Mas sabia que tinha que tomar cuidado com o que falava. O pai não podia saber a verdade.

– Bom, pai, eu só queria te mostrar isso mesmo. Eu gostaria muito de ir pro escritório e passar a noite tentando entender melhor ou montar nossas teorias como sempre fazemos, mas amanhã você tem que trabalhar e eu ir pra escola.
– Tudo bem, princesa, durma bem e pegue leve! Não leve muito em conta as loucuras de Antonella e Eliana, ok? Espero que seja só uma pesquisa pra escola.
– Certo, posso trazer alguém pro jantar? Dia desses?
– Claro, querida!

Sorriu o pai, dando-lhe um beijo no rosto em seguida levantando-se e indo dormir. Mas naquela noite, Richard também esteve atormentado pelos mesmos pensamentos que assolavam a mente da filha, que não conseguiu nem por um segundo pregar os olhos.

♣ ♣ ♣

-Nelly! Nelly!

Chamava-lhe a voz doce do anjo num sussurro para não acordar ninguém. Ele a sacudia até que abrisse os olhos.

– Só mais cinco minutos, por favor!

Ela respondeu, sem abrir os olhos, num murmurio. Ele bufou.

– Anda, Nelly, acorde, preciso falar com você.
– Por favor, Mikael, vá embora, eu tenho que dormir. Quem lhe deixou entrar?

Ela abriu os olhos e sentou-se, Mikael estando a sua frente sentado na beirada da cama.

– Me desculpe!

Disse ele.

– Claro, por ter me dado um bolo hoje ou por não me dizer nada?
– Como?

Ela levantou-se, pegou debaixo do colchão o segundo diário e jogou na cama à frente dele. Mikael franziu o cenho.

– Nelly!
– Ouça, eu não sei o que está havendo, não sei nem por que você está aqui, eu descobri esse diário na minha biblioteca hoje e…
– O que é isso? – Interrompeu-lhe, tocando o pingente em forma de chave acima do peito dela. – Hein?
– Isto… – Ela engoliu em seco. – Estava colado com fita adesiva dentro do diário numa das páginas. Você sabe o que ela abre?
– Sim!
– E o que é?
– Antonella, precisa me dar a chave!
– Por que?
– Me dê!
– Não, Mikael, me diga o que ela abre.
– Antonella, se essa chave cair em mãos erradas estaremos tão fodidos que você nem é capaz de imaginar.
– O que ela abre?
– Me dê a chave!
– Não!
– Ok, debaixo da escola há catacumbas, há anos ninguém vai lá, essa chave abre uma porta, um portal, na verdade. Como você sabe, a escola foi construída por anjos, esse portal pode ser a libertação da humanidade, como também pode ser sua própria ruína. Se essa chave cair nas mãos de algum anjo caído, ele virá.

O medo nos olhos de Mikael não era brincadeira, ele engoliu em seco enquanto a fitava e ela tocava a chave.

– Me diga, o que é um lugar onde estaremos todos seguros?
– Ashford!
– Ashford?
– Sim, amor, Ashford. Nenhum anjo caído, demônio ou espírito pode entrar, nem mesmo bruxaria entra, o sangue e suor dos anjos de luz criaram uma enorme fortaleza para que nada de ruim e negativo entrasse.
– Mas Mikael pode entrar por que foi ele quem arquitetou Ashford. – Interrompeu Loren adentrando o quarto de Nelly.
– E também, por que os sentimentos dele eram puros, ele construiu Ashford para a sua proteção. – Completou Aaron logo atrás de Loren.
– O que é isso? – Levantou-se Nell da cama. – Vocês…
-Nós somos seus anjos da guarda, Nell, e queremos muito que se distancie de Mikael para que possamos te proteger, para que tenha uma vida inteira sem que precise morrer sobrenaturalmente, como sempre. – Explicou Loren, aproximando-se de Nell que agora estava assustada. – Não entregue a chave a ele!
– Por que o portal existe?
– Amor…
– Por que sem ele não poderíamos passar e ajudar a construir Ashford. Mas, Mikael, ainda assim, não é muito confiável, ele ainda está sob controle. – Explicou Aaron.
– Sob controle?
– Nell, você morreu por que Mikael não conseguiu deter o portal, o controle mental que o demônio lhe impôs fez com que alguns anjos caídos se soltassem do inferno. Ele colocou no portal todo o seu poder de ir e vir espontaneamente e a prova disso é a chave, mas ele não pode tocá-la sem que quem a tenha lhe dê acesso. Nelly, ninguém além de você pode usar a chave, nem mesmo anjos de luz podem tomá-la de ti sem que você dê acesso.

Aaron lhe explicou sabiamente. Nell começou a chorar, encarando Mikael.

– Era isso? Por isso a queria?
– Amor… Não!
– Eu estava certa em ter indagado você sobre isso.
– Não, Antonella, tem que acreditar em mim, eu não usaria a chave pra abrir o portal, ela tem que ser destruída.
– Por que não me encontrou hoje?
– Tinha que te manter segura, eu estava matando anjos caídos que estavam rastreando você para que chegasse segura em casa. Você não percebeu, Nelly, mas eu estive perto de você o dia todo.

Ele levantou e aproximou-se, uma Loren se colocou entre ambos.

– Loren, saia da minha frente!
– Não Mikael, estamos cansados de perdê-la. Sabe como é difícil pra nós?
– E vocês sabem como é difícil pra mim? Eu a amo, eu a amo como um homem ama uma mulher desde os primórdios desse mundo. A dor de vocês não é maior que a minha.

Ele atropelou uma baixinha Loren e alcançou Nell que não o impediu. Limpou suas lágrimas com o polegar e abraçou forte.

– Eu vou te contar tudo o que precisa saber, eu te prometo. E eu juro que não sabia sobre outros diários, vamos achá-los juntos.

Ele beijou o topo da cabeça da garota.

– Mikael, eu tenho que confiar em você!
– Você pode, deixe-me mostrar como.
– Como?

Ele lhe beijou nos lábios e por aquele beijo, Nelly viu trechos de toda a sua vida. Trechos deles flertando, deles se beijando, deles dormindo juntos como homem e mulher. Nelly viu, e sentiu. Sentiu quando ele lhe guardou o sono, quando ele lhe tranquilizou depois de uma briga com alguém, sentiu pegar-lhe no colo quando era uma simples criança que havia caído e se machucado, ele havia lhe beijado os joelhos e os curado. Ela viu as asas dele saindo de suas costas dolorosamente só para proteger ela, ela viu ele confortar-lhe na morte.

Assim que se separaram, os olhos da garota eram só água. Ele passou novamente os polegares por sua face enxugando a enxurrada de água salgada que vazava de seus olhos pelas bochechas.

– Eu te amo! Nada do que eu faço é para te machucar, Antonella.
– O que eu faço?

Ela olhou para Aaron e Loren. Os dois amigos há anos, e ela nunca soube dizer o que de especial eles tinham.

– Ainda seremos seus anjos da guarda, não importa a sua posição, fomos designados a isso desde os primórdios. Também temos, infelizmente, que seguir o grandalhão aí. – Apontou Loren, o dedão para Mikael.
– Por que não me disseram nada, Loren?
– Porque não adianta, toda vez que Mikael te encontra algo te mata, te tira de todos nós.
– Como isso acontece?
– Vamos te ajudar a encontrar todas as respostas. Se há mais que um diário, isso será ainda melhor, sua eu anterior chegou muito perto de matar a charada. – Disse Aaron. – Vamos ajudar a encontrá-los!

Por fim, o primeiro raiar do sol entrou pela janela semi aberta do quarto de Nell. Ela suspirou depois de uma noite mau dormida e cheia de revelações.

– Vou me arrumar pra escola, vocês três vem jantar em casa a noite?
– Claro! – Responderam em uníssono.
– Pode dizer a mãe que eu a ajudo na cozinha.
– Ok, Loren!

Respondeu Nelly indo para o closet.

– Nos vemos lá em baixo, saiam pela janela e me esperem na entrada.

♦♦♦

NOTA: As coisas continuam se revelando aos poucos para Antonella e se desenvolvendo cada vez mais com Mikael. Agora sabemos o que a chave realmente abre e que pode trazer o apocalipse na Terra. Promessas de um Arcanjo está cada vez mais nebuloso trazendo para a nossa realidade um mundo de fantasia obscuro. Não deixe de continuar acompanhando e visitem a fanpage oficial do meu outro livro, Wires | O Anjo no facebook >>> http://www.facebook.com/sagawires. Bom restinho de mês, amores, obrigada por estarem nos acompanhando ❤

Promessas de um Arcanjo – Capítulo 10

CAPÍTULO 10 – FEEL ME

Eu sei que algum dia você terá uma vida bonita, eu sei que você será uma estrela
No céu de um outro alguém, mas por quê? Por quê? Por quê?
Não pode ser, não pode ser no meu?
Nós, nós, nós, nós, nós deveríamos ficar juntos! Juntos!
– Black – Pear Jam

arte para promessas1

♦♦♦

Sozinha, sem Mikael, Nelly caminhava pelas ruas de Londres para chegar até sua casa. Ela não estava chateada por ter lhe esperado quase o dia todo, afinal, ele dissera que apareceria no intervalo para conversarem e do nada some. Não, ela definitivamente estava chateada sim, mas não queria transparecer. Ela não queria se humilhar.

Nelly passou na frente dos garotos skin head, como naquele dia, um calafrio percorreu sua espinha enquanto pares de olhos a encaravam. Alguns ainda tinham pontos roxos abaixo dos olhos.

Ela ergueu as mãos quando o líder se aproximou.

– Eu não quero briga! – Declarou, ela.

– Tudo bem, pode abaixar as mãos, não vamos machucar você.
– Certo! – Abaixou as mãos. – E o que vocês querem comigo?
– Meu nome é… É Luke, eu quero ser seu guarda-costas.
– O quê? – Exclamou Nelly confusa. – Eu não preciso de guarda-costas, com todo respeito, Luke. Eu acho que posso me virar sozinha.
– Naquele dia…
– Não! Ouça, naquele dia, eu podia ter fugido de vocês sem a ajuda de Mikael. Eu sou uma mulher, mas não sou fraca. Eu pareço fraca? Por que se é isto que todos vocês vêem em mim, então não sabem a metade do que sou capaz de fazer.

Os olhos do rapaz de moicano verde se arregalaram, suas sobrancelhas arqueadas e os lábios sem expressão alguma. Nell riu de sua cara abertamente e depois beijou-lhe o rosto, o que o deixou ainda mais sem reação.

– Não se preocupe, está perdoado! Vejo vocês por aí, meninos!

Ela avançou sua caminhada até chegar em casa, sua mãe estava na cozinha fazendo tortas. Nell sentou-se no enorme balcão cheio de doces e experimentou um de creme.

– Está uma delícia, mãe. Esses vão pra onde?
– Rainha!
– Uau!
– Como foi seu dia, querida? – Perguntou a mãe esticando uma grande massa para biscoitos.

– Bom. Como você e papai souberam que estavam apaixonados? Alguma coisa sobrenatural?
– O que é isto, Antonella? – Riu. – Está apaixonada?
– Só quero saber como foi pra vocês.
– Oh, querida, foi tudo seu pai, ele me mandava cartas de poesia. Ele nunca as assinava, mas eu sabia que era ele. Então um dia eu o surpreendi, apareci na sua turma na faculdade, ele cursava Letras, e deixei a ele bombons que havia preparado na aula. Ele ficou rosa! Começamos a conversar, então, um dia, nos declaramos e começamos a namorar. Bom, isso resultou no nosso casamento e em você, querida.
– Você sabia exatamente de que curso ele era? – Riu, Antonella, surpresa com a esperteza da mãe.
– Ah, querida, homens são bobos, eles não sabem disfarçar. Eu sabia que era ele porque ele sempre abria a porta pra mim, encontrava-se comigo no refeitório “por acaso”, fora os olhares que ele sempre me dava. Estava claro que era ele.
– Homens!
– Mas diga, por que quer saber, há alguém?
– Não, mas ao mesmo tempo sim!
– E o que te incomoda? Apaixonar-se é bom, querida.
– Nada me incomoda, ele só… Não sei explicar! Mas enfim, pode não ser nada.
– Diga, querida, pode conversar comigo.
– Eu sei, é que… Não sei se estou preparada pra isso. O que você acha?
– O tempo é seu querida, vá devagar, se entregue, mas não se entregue completamente. Deixe-o querer mais, mas não o alimente totalmente. Também não seja má e tenha cuidado com o tipo de pessoa que ele possa ser.
– Você acha que posso me machucar?
– Querida, se machucar é inevitável, nada nunca será perfeito, mas se você ama, até mesmo os pequenos detalhes, os pequenos defeitos, se tornam perfeitos. Filha, amar é quando a pessoa usa sua escova de dentes todo o dia e você não se importa com os germes dela, mesmo quando ela está doente.

Nelly riu alto, depois levantou da banqueta, roubou mais um doce de creme e subiu para o escritório onde o pai lia seus livros diários. Ela o beijou no rosto e lhe entregou o doce para agradá-lo.

– Olá, amor. Como está minha garota hoje?
– Sério? Mamãe estava falando das suas cartas poéticas em épocas de faculdade.
– Oh, não! – Ele abaixou a cabeça com o rosto corado.
– Oh, sim! – Riu, Nell, sentando-se no chão em frente à lareira semi apagada. -Papai, tem algum diário da minha bisavó aqui?
– Uau, inesperado, querida. Por que você quer um diário dela?
– Na escola, uma das irmãs disse que ela foi uma pessoa importante.
– Espera, não está falando da Eliana Pierce, está falando da irmã dela, certo?
– Sim, a Antonella.
– Certo, deixe-me ver!

Papai levantou-se e procurou pelas altas e cheias prateleiras. Nelly, lhe observava com atenção e curiosidade.

– Achei!

Nelly quase deu um pulo de surpresa. Ela levantou-se rapidamente e o pai lhe mostrou o volume em couro velho quase igual ao que tinha em sua mochila. Rapidamente, ambos foram para a mesa abri-lo.

– Quer fazer as honras?
– Certamente que quero.

Ela abriu, delicadamente, puxando suave as tiras de couro e desfazendo os nós nas fechaduras. Estava aberto. Uma fotografia dela logo na primeira página com uma roupa vitoriana lhe fazia subir calafrios pela pele.

– Nelly, você é igualzinha a ela!
– Vamos ver o que diz.

Ela não estava nem aí se o pai soubesse ou não sobre anjos, sobre o que estava escrito ali, ela não ligava, só queria continuar lendo.

– Querida, veja! – Indicou o pai uma página onde havia uma pequena chave numa corrente fina pregada com fita adesiva.

– Uma chave?

Nell tirou a fita adesiva com cuidado e dela tirou a pequena chave. Ela não deveria ter nem cinco centímetros, era dourada com pedras opalinas incrustadas.

– Que porta que ela abre? – Perguntou o pai.

– Não faço a mínima ideia, pai. Talvez nem seja uma porta, talvez uma caixa, uma gaveta, mas, alguma coisa ela abre.

Eles viraram a página seguinte, não dizia nada, estava em branco, então viraram a próxima e tudo o que encontraram foi uma foto de um homem de longos cabelos negros levantando um bloco de pedra a beira de uma construção. Ele estava de costas, não dava pra ver quem era, mas Nelly já sabia que era Mikael ali.

– Quem seria ele?
– Papai, o que você sabe sobre ela?
– Bem, minha avó dizia que Antonella havia ficado louca em uma certa idade. Ela acreditava que havia anjos entre nós, e minha avó tentou salvar a irmã da loucura, mas ela havia se matado. Ela comentou muito pouco enquanto era viva. Ela dizia que Antonella havia se comprometido com um bruxo e ela não conseguia impor nada à irmã. Elas eram órfãs, querida.
– Que triste! Vamos ver o que ela fala sobre os tais anjos.
– Claro!

Eles viraram a página novamente e nela havia um desenho de um par de asas feita com carvão. Era um desenho esdruxulo, feio, mal feito. No papel, havia gotas de sangue. Nelly ficou impressionada, seu pai estava sem reação.

– Acha que ela era louca, pai?
– Talvez atormentada, apenas. Mas eu, agora, estou curioso. O que a atormentava e por quê?
– Um bruxo, hein?
– Acredita que seja o homem da foto?
– Talvez! Eu posso ficar com ele? Quer dizer, pro meu trabalho da escola?
– Claro, querida, depois você me diz o que achou. Eu vou ficar procurando outros volumes, qualquer coisa eu te chamo.
– Obrigada, pai.

Nell tomou-lhe em suas mãos o diário, sem dizer ao seu pai que já havia um outro em sua mochila. Juntou suas coisas e foi direto para o quarto, onde jogou os sapatos pra um canto e, antes que a mochila tivesse o mesmo destino, retirou o primeiro volume de dentro e se jogou na cama com os dois diários.

O segundo volume nada mais era do que um relato da sua própria loucura. Nell não tinha dúvidas, sua antepassada, talvez, realmente tivesse ficado louca no final das contas. Mas uma coisa era verdade, ela não fantasiava com anjos e Eliana, sua irmã dez anos mais velha, provavelmente sabia e escondia a verdade das gerações seguintes para que o segredo morresse com ela assim que fosse posta há sete metros terra abaixo. Mas não fora muito eficiente o que sua irmã em outra vida havia feito, não garantia que ela não voltasse novamente e descobrisse os diários, ou, muito além disso, soubesse a verdade e se reencontrasse com Mikael.

– Isto não está certo!

Ela leu, página por página, trecho por trecho.

Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo. Ele está vindo.

Havia páginas inteiras com a mesma sentença. Ele está vindo.
Nell estava horrorizada com aquilo. No final havia um grande: MIKAEL NÃO PODE DETÊ-LO!
O que deixou Nell completamente sem reação e até mesmo com certo receio. Havia mais do que simplesmente morrer por se apaixonar e ela não sabia, mas descobriria. Talvez, aquela chave em sua mão fosse a resposta para todas as perguntas que Mikael não podia ou não queria lhe responder.

Uma batida na janela de seu quarto a fez pular de susto. Lá estava ele, lhe sorrindo. Mas ela, de alguma maneira, não conseguia lhe retribuir o sorriso. Estava estupefata, ainda, com os acontecimentos daquele dia fatídico, cheio.

Mikael franziu o cenho, a expressão dela nada mudara.

– Não vai me deixar entrar? – Perguntou ele sobre o vidro da janela que os separavam. Ela apenas negou com a cabeça. Ele odiou, desviou o olhar e foi embora.

♦♦♦

NOTA: Então, o que será que a misteriosa chave abre? Quais segredos ela carrega consigo sobre Antonella e Mikael? Eu acho que talvez tenha exagerado no mistério neste capítulo, mas o que seria Promessas de um Arcanjo sem uma pitada de mistério? Eu espero que tenham gostado e estejam tão loucos com a continuação quanto eu!!
Um grande beijo aos fiéis e até semana que vem 😉

OBSESSED – Capítulo 1

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Capítulo I

No instante em que eu não a encontrei, meu corpo começou a tremer e eu temi. Talvez eu não devesse ter dado tanta importância, afinal de contas, quem teria motivos para invadir a minha casa? No entanto, a quietude desoladora no interior da casa me pôs em alerta. O único som que eu pude ouvir era do meu próprio coração, golpeando meu peito de forma desordenada, enquanto a minha respiração se tornava cada vez mais densa, a ponto de me deixar num estado de tensão. Movido pela emoção, minha reação de instinto protetor, ou seja lá como quiser chamar, foi correr à procura de Juliet, embora eu não soubesse quem a havia levado, nem ao menos para que lado ele havia seguido, antes de fazê-la desaparecer.

O inimaginável eu vi acontecer. O que deveria ser apenas mais um exercício rotineiro, acabou me levando a enfrentar o meu pior pesadelo. Tente pensar em seu maior medo, apenas tente. Seu corpo começa a trabalhar numa espécie de autodefesa, enquanto uma parte do seu cérebro tenta impedir que você se lembre, seus órgãos iniciam seções de compressões. Um calafrio sobe por seu corpo e de maneira estranha gotículas de suor começam a brotar sobre seus poros. Suas veias se espremem o suficiente para deixar sua respiração cada vez mais lenta, a concentração de dióxido de carbono no sangue começa a aumentar o suficiente para que seu cérebro se comporte de maneira ansiosa, na tentativa desesperada para voltar a receber oxigênio. De início você sente náuseas, tontura e fortes dores de cabeça, seguido de uma sensação terrivelmente desconfortante. Você procura desesperadamente por uma saída, mesmo que não consiga se mover. O pânico é iminente. O chão parece estar prestes a se abrir abaixo de seus pés e você não tem para onde correr. É apenas uma questão de tempo, mas até quando?

Parte do seu sistema nervoso começa a mandar impulsos nervosos para o diafragma e músculos intercostais, forçando-os a se contraírem até que sua respiração volte normalmente. Agora você está de volta ao controle.

O chão arenoso embora fosse de asfalto, as micro pedras feriam meus joelhos e o peso do meu corpo, embora eu tivesse um físico perfeito para quem tem 1,90m, não me favorecia nesse momento. Mesmo a rua não estando totalmente escura, a luz que emergia da lanterna do policial ofuscava minhas vistas.

O que ele estava pensando ao por aquilo na minha cara?

O jovem policial comunicou pelo radio, o qual estava preso acima de sua farda amarelo-encardido, no ombro direito. O rapaz pareceu sentir o meu pavor e isso o deixou tenso, prova disso foi quando ele secou a testa com as costas de uma das mãos. O policial certamente era novato na profissão e inexperiente, estava na cara. Grande parte da vizinhança já estava fora de suas casas, observando-os com expressões agressivas, como se estivessem assistindo a um filme de horror. Eu teria rido se a situação não fosse tão desesperadora. Juliet estava desaparecida. Ela tinha partido, mas para onde? Ela não teria porquê fugir. Ou teria?

Juliet tinha pintado os cabelos de loiro há alguns dias. Ela os tinha cortado, a transformado em outra pessoa, alguém que ele não conhecia, alguém que jamais existiu. Talvez Juliet já houvesse planejado fugir, todos os indícios apontavam para uma fuga premeditada, seu instinto de detetive nunca falhava. Isso explicava porque seus olhos insistiam em abrir umas cinco vezes durante a madrugada. Richard já suspeitava que ela pretendia partir, só não sabia quando.

O relógio no alto da parede da delegacia marcava 3:18 da madrugada. Parecia uma eternidade ficar de pé junto ao balcão de informações esperando impaciente para ser atendido. Caso fosse um bandido já o teriam enjaulado há muito tempo. Sua esposa estava sabe Deus onde. Em sua profissão, Richard sabia que cada segundo era precioso para tentar encontrá-la, enquanto as pistas ainda estivessem frescas.

Usando sua farda em tons de areia, o Sheriff Staton se aproximava carregando em uma das mãos o seu chapéu da mesma cor de seu uniforme. Sua aparência era tão deprimente. Richard concluiu que se voltasse a olhá-lo, acabaria se sentindo da mesma forma. O Sheriff deu a volta no balcão sem ao menos cumprimentá-lo. Isso deixou Richard bastante irritado. Cerrando os dentes, ele o observou por um instante, como uma criança carente por atenção.

– Sua postura não me intimida senhor Stark. – informou o Sheriff evitando encará-lo de volta.

Harold Staton era o Sheriff da pequena cidade de Richland County, em Ohio. Acordar àquela hora da madrugada estava se tornando um hábito que ele não queria manter por muito tempo. Tudo começou quando um lunático resolveu assombrar seu sono, consumindo suas energias.

Há mais ou menos seis meses, uma jovem, dada como desaparecida há pouco mais de cinco dias, fora encontrada as margens do lago Fleming Falls. Havia sido a cena mais perturbadora de toda a sua carreira como policial. Harold nem precisou esperar os resultados da autópsia para poder saber o que ocorreria com a jovem. Ele pensou que jamais voltaria a presenciar cenas como aquela, pois tudo não passaria de um caso isolado. Isso até encontrar mais uma vítima num local diferente, mas com o mesmo método adotado com a vítima anterior. A diferença de uma vítima para outra é que esta havia sobrevivido. Agora mais uma mulher havia desaparecido. Aquilo o estava consumindo. Há mais de dois meses não se ouvia falar de assassinatos naquela cidade, era certo que nos finais de semana a delegacia costumava ficar um caos, sempre por motoqueiros que brigavam no Deva’s Bar, por motivos insignificantes.

– Será que alguém pode me dar atenção aqui? – indagou Richard encarando o Sheriff.

– Logo o senhor terá toda a atenção que quiser. – respondeu Staton o ignorando. – Pelo que sei, o senhor pode muito bem ter assassinado sua esposa, já que não há testemunhas, até o momento, que tenham visto algo suspeito.

– O que? – retrucou surpreso.

– Você interpreta cenas de crimes como ninguém, poderia muito bem fazê-la desaparecer e ninguém nunca saberia.

Ele só poderia estar brincando.

Sua esposa estava lá, sabe onde e com quem, e ele preferia entrar numa de ser sarcástico.

– Oh meu Deus, Richard! – disparou Marge ao adentrar na pequena delegacia e avistar o sobrinho.

Richard estava como um de seus jarros caros, agora quebrado. Perfeitamente belo, mas em pedaços.

Henrique acariciava a nuca da esposa, enquanto ela abraçava o sobrinho com suprema atenção. Para os Donovan, Juliet era mais do que a esposa de Richard, ela era considerada parte da família, uma filha que eles jamais tiveram.

– Eles vão encontrá-la, pode ter certeza disso. – afirmou Marge com sua voz embargada, enquanto suas mãos trêmulas seguravam o rosto do sobrinho.

A verdade é que nem ela tinha tanta certeza, pois Juliet sempre lhe pareceu instável, e não seria novidade se de repente ela resolvesse ir embora apenas por ter se cansado da boa vida que levava.

– Eu não tenho tanta certeza disso, titia. – informou Richard encarando-a nos olhos.

– O que você está dizendo? – questionou Marge quase em sussurro, recuando suas mãos.

– Eles não têm uma força ostensiva nessa cidade para começar a fazer uma investigação rigorosa e necessária. – dizia ele no mesmo tom. – Eu não poderei investigar ou fazer parte de qualquer coisa para tentar encontrá-la. – lamentou.

– Eles acham que você tem alguma coisa haver com isso? – questionou Henrique alterado.

– Eu terei que dar meu depoimento. – comentou Richard indiferente.

– Vou ligar para o meu advogado. – se adiantou Henrique, retirando o aparelho celular do bolso de sua camisa pólo.

– Isso, querido. – incentivou Marge, tentando se manter no controle.

Richard sabia que precisaria de um advogado, uma vez que não poderia explicar o desaparecimento de Juliet, mesmo estando apenas os dois naquela casa. Em todo caso, bancar o herói não adiantaria de nada. A verdade é que desta vez estava impedido de fazer qualquer coisa e, caso tentasse, poderia perder o emprego.

– Amanhã cedo ele estará aqui. – informou Henrique ao se aproximar.

– Vai ficar tudo bem. – disse Marge, na tentativa de consolá-lo.

Uma onda de alívio se apossou de Richard. Ter o apoio de sua família era algo realmente sobrenatural, não que ele fosse devoto a algum tipo de crença, mas o ambiente familiar tinha uma força inimaginável para moldar um indivíduo, mascará-lo e esconder suas imperfeições por um determinado tempo ou pelo resto de sua vida. No entanto, o caráter do indivíduo não pode ser infligido e, se alguém tentar ultrapassar esses limites, os resultados serão desastrosos, se tornando um caminho sem volta.

Sentado junto à mesa em uma pequena sala, a qual Richard conhecia muito bem, ele observou o enorme espelho à sua frente, sabendo que aquilo não era o que aparentava ser. Havia outra pessoa do outro lado do espelho o observando, a fim de estudar seu comportamento, acreditando que assim o deixaria acuado.

– Vamos ser bons amigos detetive, como nos velhos tempos, assim poderemos terminar isso o mais rápido possível. – disse o Sheriff pondo o seu chapéu sobre a mesa de alumínio, se sentando em seguida. – Eu não sei você, mas essa história de que a sua esposa foi levada e você não ter visto nada, ou nem mesmo ouvido um pedido de ajuda, é meio que difícil de acreditar.

O Sheriff o analisava como um leão, prestes a ceifar a vida de sua presa. Ele não tinha o que dizer de Juliet, mas tinha muito a pensar sobre ela. Assim como Richard, ela era nova na cidade e, por mais que sua natureza chamasse bastante atenção, nunca pareceu ser o tipo de coisa que ela gostaria de atrair para si. O mesmo poderia ser pensado sobre Richard, um velho conhecido do Sheriff. Afinal, era ele o responsável pelas investigações ao que se referiam as vítimas do assassino em série “Aquário”. No mesmo ano, Juliet e Richard se conhecem e de alguma forma nutriram uma relação amorosa que veio a se transformar em casamento. O Sheriff não era nenhum Criminal Profiling, mas conhecia muitas mulheres que, assim como Juliet, escondiam segredos e Richard era o tipo de marido capaz de tudo para mantê-la a salvo.

– Eu não preciso que você acredite. – retrucou Richard, encarando os olhos destemidos do Sheriff.

No mesmo instante um policial bateu na porta, antes de adentrar na sala de interrogatório, entregando ao Sheriff uma ficha com a descrição do laboratório de corpo de delito. O exame médico foi feito por livre e espontânea vontade de Richard, pois ele não queria ser acusado do que quer que tivesse acontecido com sua esposa. Como previa, foram encontrados sinais em seu corpo, inúmeros arranhões, marcas de mordidas e DNA de Juliet, mas nada que devesse ser considerado autodefesa. Tudo não passava de sinais de uma noite de sexo no estilo bem selvagem.

Se Richard não havia matado a própria esposa, existia a possibilidade de haver uma terceira pessoa, alguém que ele conheça, e que possivelmente a tenha levado. Ele poderia estar sendo chantageado ou algo do tipo. Deixando o exame de lado, o Sheriff voltou a encará-lo.

– Então serei direto com o senhor, mente brilhante. Quero que me ajude a encontrá-la. Então, se você sabe de algo sobre o desaparecimento de sua esposa que ainda não tenha me contado, me faça poupar tempo.

As suspeitas em Frank só aumentavam, mas Richard sabia que não poderia revelar suas suspeitas ao Sheriff, pois sua carreira estava em jogo.

– Está sendo coagido por alguém? – A figura inexpressiva de Richard o estava fazendo perder a paciência. Richard não iria cooperar, a não ser que fosse pressionado. – Sabe o que eu acho? Talvez você tenha se cansado da vida conjugal. Talvez você não quisesse aceitar uma possível proposta de divórcio. – sugeriu.

Richard manteve a sua postura evasiva. Olhando para o documento acima da mesa, reconheceu sua procedência. Obviamente não havia nada ali que o comprometesse, isso explicava o desespero do Sheriff por respostas.

– Vamos lá, nenhum casamento é perfeito, sempre há um momento em que nossos punhos tendem a acerta um alvo, ou quando nosso dedo coça no gatilho de uma pistola carregada.

O Sheriff tem jeito pra coisa.

Richard teve que admitir que compreendia a espécie de jogo que ele gostava de jogar, a fim de obter alguma confissão.

– Quanto tempo leva de Nova York à Ohio? Uma hora e meia? Temos tempo suficiente para fazermos uma gratificante amizade, enquanto o seu advogado não aparece. – sugeriu. – Sinta só, está sentindo a adrenalina subindo?

– Eu não tenho porquê esconder algo de você. – garantiu o encarando nos olhos. – Você acha que eu não quero entender o que foi que aconteceu? Como ela pôde desaparecer em quinze minutos, sem que eu tenha percebido nada de estranho? Porque ela ainda dormia quando me levantei pra ir a cozinha. Está enganado se pensa que estou tranqüilo com tudo isso, pois minha vontade é de pegar minha arma e sair por ai interrogando qualquer pessoa que tenha olhado de forma hostil para Juliet nesses últimos dias.

Richard sabia que o Sheriff estava fazendo apenas o seu trabalho e levantar hipóteses fazia parte do show. Ele sabia como seguia a linha de raciocínio em uma investigação; a primeira seria colher o maior número de informações sobre a vítima, o que Richard chamaria de estudo da vítima, conhecido na área da criminologia como vitimologia, a ciência que estuda a relação de vítima e criminoso. É extremamente importante para o caso diferenciar que tipo de vítima Juliet é em questão, para que assim o Sheriff possa criar o perfil dela como vítima e do possível suspeito por seu desaparecimento, ou não, uma vez que não seria a primeira vez que alguém forja o próprio assassinato para incriminar o marido agressor ou então fugir de uma dívida de drogas e sabe-se lá quais razões uma pessoa ter para cometer tal delito.

É um pouco difícil acreditar em testemunhas oculares, nem sempre tudo é como uma testemunha descreve. Não se deve acreditar em qualquer um que se diz ser “o Cristo”. Mas se a única testemunha do caso for o marido, seguiria ao ritmo do segundo passo, que seria questionar a vida profissional do cônjuge e como era a vida do casal antes do ocorrido. Isso até poderia parecer algo inofensivo, mas que lá na frente se tornaria determinante para saber se estavam diante de uma vítima ou do possível autor do crime. A terceira parte seria deixar o possível suspeito crente de que não será pego, encurralá-lo como um rato e fazê-lo perder o controle da situação e de si mesmo e, por fim, o ouviria apenas confessar.

Óbvio que nada seria tão fácil assim. Richard teria que se manter calmo e cauteloso, mesmo que não tivesse nada haver com o desaparecimento de Juliet, sabia que a função de Staton era encontrar um culpado e prendê-lo.

– Então tinha alguém querendo fazer mal a Juliet. – constatou. – Me diga, Detetive, quem são essas pessoas?

O dia seguinte havia amanhecido quente, o céu em tons de azul celeste permanecia limpo por todo o condado de Richland County. Uma parede de ar quente subia no asfalto, movimentava-se como uma cortina de seda. O pneu de um carro atravessou a cortina de calor em alta velocidade. Em pouco tempo, mais duas viaturas se juntaram em frente a uma das residências.

Os vizinhos saíram de suas casas assim que perceberam a movimentação dos policiais pela vizinhança.  Não era uma cena comum na vizinhança, assim como a cena presenciada na noite passada. Ninguém até então sabia o que estava acontecendo, mas como em toda cidade pequena que se preze, as noticias corriam mais rápido que Usain Bolt em uma olimpíada.

A casa amarela com o cercado branco na fachada havia se tornado uma cena de crime, embora não houvesse nada que caracterizasse um suposto sequestro, também não havia evidencias de que comprovassem que ela havia sido assassinada dentro da própria casa. O Sheriff adentrou no pequeno quintal observando tudo a sua volta. A janela do segundo andar permanecia aberta e não haveria como ter sido fechada, uma vez que Richard foi convidado a passar a noite na prisão, para que nenhuma cena fosse alterada na casa. Brinquedos como carrinho com pedal, bola de basquete foram possíveis ser vistos a um passo da entrada para a garagem. A jardinagem estava muito bem cuidada e por lá o Sheriff pôde encontrar pás de plásticos que provavelmente pertenciam a uma criança. Com as sobrancelhas curvadas para o centro dos olhos, uma grande questão havia se formado em sua mente. Por que Richard não havia mencionado uma criança? Onde estava a criança? Teria Juliet fugido, levando consigo o filho do casal?

Passando pela porta principal da casa, a qual já estava aberta, adentrou na pequena, porém espaçosa, sala, que era dividida por uma bancada dando livre acesso à cozinha. Estava tudo incrivelmente limpo no primeiro andar. Chegando ao segundo andar, Staton observou atentamente os cômodos, pois era lá que tudo havia iniciado. Adentrando no quarto do casal, o encontrou em perfeito estado, exceto pela cama desarrumada. Staton caminhou mais alguns passos à frente até se deparar com o guarda roupa do casal. Abrindo-o, encontrou as roupas de Juliet. Não parecia ser o guarda-roupa de quem havia fugido de casa. Um sorriso brotou em seus lábios enquanto ele agitava a cabeça de forma afirmativa. Seu faro de investigador não costumavam falhar, ainda mais quando indícios suspeitos desapareciam da cena do crime.

Olhando pela janela, Staton conseguia enxergar as três casas a frente desta. A da esquerda era verde lima e a casa a sua direita tinha a fachada em azul céu, mas a que lhe despertou atenção foi a casa do meio, a qual ficava bem em frente à janela onde ele estava. A tal casa tinha a fachada branca, mas a cor estava bastante gasta e suja. Havia no gramado dela uma enorme placa com a descrição “À venda”. O Sheriff se afastou da janela, se virando, encontrando um dos policiais fazendo anotações.

– Você é casado, Rodrigues? – perguntou observando o cômodo.

– Sim senhor. – respondeu entusiasmado.

– Faz quanto tempo mesmo? – questionou, fingindo interesse.

– Pouco mais de três semanas. – respondeu o jovem sorrindo.

– Vocês tiram muitas fotos juntos?

– É claro! Queremos registrar cada momento.

– Então, por que desde a minha entrada nesta casa, eu não encontrei nenhuma foto dos donos?

Na parte da tarde, Richard estava de volta à sala de interrogatório. Suas costas doíam bastante. Fazia tempo que não dormia tão mal. Bem, ele tinha tentado dormir, mas Juliet não saía de sua mente. Ele precisava sair daquele lugar, precisava encontrá-la. Seus olhos ergueram em direção a porta ao ver o Scheriff Staton entrar e fechá-la.  Ele assobiava algum tipo de música country. Isso deixou Richard bem irritado.

– Vocês já encontraram alguma coisa? Já tem ideia de quem a possa ter levado?

– Senhor Stark, estamos fazendo todo o possível para encontrar sua esposa. – informou Staton, sentando-se de frente com ele.

– Então faça o impossível. Ela pode estar em qualquer lugar, lá fora, correndo perigo. – Era assustador ter um pensamento como este, mas com toda a sua experiência, Richard sabia que cada segundo era crucial para que a vítima de um sequestro fosse encontrada com vida. – Você vem acompanhando o caso, sabe o que está acontecendo. Tem um louco a solta matando mulheres e sabe lá o que mais. – Richard engoliu as lagrimas. Não iria chorar na frente do Sheriff, tinha que se manter forte e no controle. – Eu não posso perdê-la, não depois de tudo o que fiz por ela.

– Por que diz “tudo o que fiz por ela”? O senhor está escondendo alguma coisa? – indagou Staton o encarando desconfiado. – Esqueceu de me dizer algo que eu ainda não saiba senhor Stark?

Era compreensível o desespero de Richard, mas até então não havia nenhum indício de que Juliet havia sido sequestrada e, para o Sheriff, ela bem que poderia ter motivos suficientes para fugir de casa, algo que Richard estava escondendo.

– O que eu poderia estar escondendo? – perguntou Richard, curvando as grossas sobrancelhas para o centro dos olhos.

– Por que não mencionou que tinham um filho? E onde é que está a criança? Sua esposa fugiu de casa e levou a criança?

Como se houvesse sido pego em flagrante, a expressão facial de Richard mudou de um marido desesperado à uma pessoa extremamente calculista, enquanto seus pensamentos começavam a vagar por um lugar que somente ele sabia onde existia.

– Não achei que fosse necessário mencioná-lo, minha esposa tinha acabado de desaparecer, e a criança que procura é filho dela com outro homem, o qual eu venha a ter suspeitas de que ele sim pode ter algo a ver com o seu desaparecimento. – respondeu impaciente, tocando com o dedo indicador acima da mesa. – O menino está com os tios. Juliet e eu concordamos que seria o melhor a ser feito, não queríamos correr riscos.

– Então acredita que o ex-marido dela possa a ter sequestrado? – o Sheriff não parecia nada satisfeito. Richard estava escondendo algo, ele tinha certeza quanto a isso.

– Ele a caçou durante anos, eu posso provar. – garantiu.

Uma semana antes, Frank havia se encontrado com Juliet por coincidência. Ele havia rodado por todos os cantos da pequena cidade de Mansfield, Ohio, e não encontrara nada sobre Juliet e ninguém a reconhecia por meio de uma fotografia. Talvez ela tivesse assumido outra forma física ou simplesmente mudado o visual e foi exatamente isso que ele encontrou. Diferente dos cabelos longos, eles estavam curtos, onde as pontas seguiam até o maxilar. A cor havia se tornado loiro ao invés do castanho avermelhado e desbotado.

Distraída em um dos corredores, Juliet observava as referências escritas no verso de uma caixa qualquer de vitaminas. O supermercado era bem grande e estava bem movimentado, para uma cidade pequena. Ao seu lado estava um carrinho bastante cheio e sentado junto as mercadorias estava o não tão pequeno Ethan.

A algumas ruas longe do supermercado, Richard abastecia o seu carro num posto de gasolina, que era localizado bem no centro da cidade. Foi quando o atendente reconhecera a fotografia de Juliet em sua carteira, no momento em que Richard retirava algumas notas para pagá-lo.

– Um cara esteve aqui ontem a tarde e estava procurando por ela. – informou o rapaz apontando para a fotografia na carteira de Richard.

– Você tem certeza de que é mesmo ela? – questionou Richard estendendo a carteira para que o rapaz visualizasse melhor a fotografia.

Movendo a cabeça de forma afirmativa, o rapaz não desvirava os olhos da foto de Juliet. Não havia nenhuma dúvida de que se tratava da mesma mulher. Deixando o dinheiro sobre o balcão, Richard correu em direção ao seu carro e o mais depressa saiu do posto seguindo em direção à sua residência. Apanhando o aparelho celular sobre o painel, ele efetuou a discagem rápida para se comunicar com Juliet e a cada toque sua angústia aumentava.

No supermercado, Juliet apanhou o celular ao ouví-lo disparar. Sem pressa, ela o retirou de dentro da bolsa e leu o nome de Richard no visor abrindo um largo sorriso. Seus olhos brilhavam sempre que ele estava por perto ou simplesmente lhe deixava um recado. O cuidado dele para com ela sempre a deixava em paz consigo mesma.

– Oi, amor. – o cumprimentou com graciosidade em seu tom de voz. Juliet jamais conseguiu esconder a alegria que era capaz de sentir toda vez que falava com Richard. Ela o amava e estar com ele era tudo o que precisava.

– Onde você está? – questionou em um tom de voz alto e severo.

– No supermercado. Mas, espera, por que está falando comigo nesse tom? Aconteceu alguma coisa? – indagou preocupada. Richard jamais se mostrou agressivo, como nunca havia falado com ela daquela forma.

– Fique aí, estou indo buscá-la. – disse fechando o celular e em seguida o jogando a cima do painel.

Freando o veículo, Richard engatou a marcha para trás girando o volante com força. Acelerando, ele manobrou o veiculo na pequena rua. Posicionando a marcha para frente, engatou a segunda acelerando o veiculo.

Juliet observou o aparelho celular incrédula. Não conseguia acreditar que Richard tinha mesmo desligado o celular de forma tão grosseira.

– Acho que o seu príncipe acabou de se transformar em sapo. – zombou a voz a no fim do corredor.

Juliet paralisou ao reconhecer de imediato a voz do estranho que falara com ela. Levantando os olhos, ela encarou o seu maior pesadelo.

– Finalmente eu encontrei você, querida. – disse Frank, disparando um enorme sorriso. – Você faz ideia de quanto tempo eu demorei para te encontrar? Mas, agora acabou a brincadeira, você vai voltar comigo para casa.

A lata despencou de sua mão, se chocando contra o chão. Juliet não conseguia falar, nem tão pouco se mover. O pavor já havia lhe dominado, tirando qualquer possibilidade para que ela conseguisse escapar daquele lugar.

– Meu marido está vindo. – disse com a voz trêmula.

– Seu o que? – retrucou em voz alta, mas logo abaixou o seu tom de voz, pois não queria chamar a atenção das outras pessoas. – Sua vadiazinha egoísta, você não tem outra escolha. Volte comigo ou pode se despedir do seu filho.

– Você não pode fazer isso. – choramingou tentando alcançar o carrinho de compras com uma das mãos.

– Você é mesmo burra. – esbravejou impaciente. – Assim que você fugiu, eu dei parte de você por tentativa de assassinato e por sequestrar o meu filho.

– O que? – disse quase inaudível. – Você me agredia. – tentou ela se justificar em um fio de voz.

– Onde estão as marcas? – indagou ele se inclinando para observá-la. – Para mim você está perfeitamente bem. Onde estão as suas testemunhas? Pois eu tenho. São os nossos queridos e adoráveis vizinhos. Foram eles que me socorreram enquanto eu sangrava até a morte. Lembra-se deles? Rude e Bob?

– Você não pode me ameaçar. Richard é policial.

– Sério? Um policial corrupto, que ajudou uma puta desgraçada, a única suspeita de tentativa de homicídio e de sequestro a se esconder? Isso vai ser muito bom a meu favor.

Frank sorriu vantajoso.

Juliet sabia o quanto Frank estava certo. Ela foi burra o bastante para não denunciá-lo quando sofrera as repetidas agressões e havia fugido de uma cena de crime, onde ela havia atentado contra a vida de seu próprio marido e em seguida desapareceu com o filho de ambos, sem o consentimento do pai. Juliet sabia que havia errado desde o início. Agora estava prestes a perder uma das pessoas que mais amava. Lentamente, Juliet se movimentou pela lateral do carrinho, apanhando Ethan nos braços, que se assustou pela forma brusca como ela o havia pegado.

– Achei você! – disse Richard surgindo de repente a puxando para seus braços.

Retribuindo ao abraço de Richard, Juliet o agarrou com força, enquanto seu corpo vibrava de pavor. Com um pouco de esforço, ela olhou para trás avistando o final do corredor, e o encontrou vazio, sem nenhum sinal de Frank.

Richard manteve o olhar vazio, mas a mente focada nas ultimas 24 horas, precisava encontrar um erro, uma pista que o levasse diretamente ao ponto de início. O que tinha acontecido dentro de sua própria casa?

– Certo. Isso talvez possa justificar o porquê não existam fotos de ambos na casa, nem qualquer outro documento. – comentou o Sheriff. – Ou se esqueceu de mencionar que elas foram roubadas? Porque no seu depoimento você disse que nada havia sido roubado.

– Onde quer chegar? Se quiser me acusar de algo, o faça. Não fique dando voltas tentando me encurralar.

– Você está se sentindo encurralado, detetive? – questionou calmamente, o encarando nos olhos.

– O que? – retrucou Richard, confuso.

– Eu quero apenas ter certeza de que não existem motivos para que eu vá desconfiar do senhor. Pode ter certeza de que se houver algo para ser descoberto, eu irei descobrir.

– Eu não responderei mais nada sem que o meu advogado esteja presente.

Com os dentes cerrados, o maxilar de Richard se apertava como se ele sentisse dor, enquanto mantinha o olhar vazio para o Sheriff.

Dias atuais

O som do disparo de uma maquina fotográfica profissional preencheu o quarto. O fotógrafo usava apenas um samba-canção branco, exibindo seu corpo forte e atlético. Seus olhos intensamente azuis surgiram por detrás da lente, observando o objeto de sua obsessão, como se aquilo fosse o mais importante para si. Aproximando ainda mais a lente por uma das janelas das casas pela vizinhança, ele a virou em direção a uma das árvores onde um pássaro silvestre se escondia por detrás das folhas verdes. O fotógrafo registrou algumas imagens até ser interrompido por uma chamada em seu celular. Richard se virou, afastando-se da janela, caminhado em direção à cama, onde se sentou observando um porta retrato acima da mobília à sua frente. Na fotografia, ele estava abraçado com Juliet, onde aparentavam estar tão felizes, como jamais estiveram. Estar com ela era o que tornava todas as coisas possíveis. Juliet tinha o poder de transformar grandes turbulências em pequenos tremores, que se distanciavam com o tempo através de seus carinhos. Ela tinha o sorriso mais incrível, a voz mais linda e o olhar que em segundos era capaz de lhe tirar o fôlego.

De certa forma Richard se sentia culpado pelo desaparecimento de Juliet. O caso havia sido arquivado, não havia corpo e a policia não havia encontrado nenhuma evidência de que ela havia sido sequestrada. Para eles, ela supostamente havia fugido, uma suposição que Richard defendia com todas as suas forças. Juliet foi levada e ele tinha certeza quanto a isso. Seu faro de detetive lhe dizia que ela deveria ter sido levada entre os quinze minutos de sua ausência, ou ainda pior, ela ainda poderia ter estado com o criminoso dentro da casa, o que não foi comprovado, nem por ele mesmo. Mas, se o sequestrador ainda estava dentro da casa, ele teria tempo o suficiente de retirá-la de lá assim que avistou Richard sendo detido. O sequestrador a levou para a casa onde havia passado meses a observando. Se houvesse feito uma busca mais minuciosa pela casa os teriam encontrado. Obviamente Richard entraria numa luta corporal com o invasor, talvez ele acabasse lhe tirando a vida, mas não teria sido em vão. Agora a culpa o cercava com uma vontade desesperada de voltar no tempo e tentar salvá-la.

De inicio, suas suspeitas decaíram sobre Frank, o ex-marido de Juliet. O cara havia atravessado os estados meses a fio à procura dela. Ele havia ameaçado suas vidas ao descobrir o envolvimento dela com outro homem totalmente diferente dele, tanto na aparência física quanto nas condições financeiras.

Ao levantar, Richard seguiu até a cômoda, onde apanhou um porta retrato. Observando a fotografia com seus grandes olhos cinzentos. Richard não esboçava nenhuma outra reação a não ser o vazio. O enigma sobre o que poderia ter acontecido naquela noite parecia ser algo que ele jamais poderia decifrar. Abrindo uma das gavetas, ele jogou o porta retrato e com a mesma força ele a fechou.

Promessas de um Arcanjo – Capítulo 09

CAPÍTULO 09 – MAIS SEGREDOS

Uma palavra e uma palavra é muito
Foi falado entre nós esta noite
Quebrou a tranquilidade antes da tempestade
Rasgou o veludo da noite
– I Ceased – UnSun

arte para promessas1

Quando Antonella abriu os olhos novamente, Mikael estava desmaiado sobre o colchão da cama. Debruçado, ele dormia normalmente, a respiração tranquila, os lábios numa perfeita linha reta.

– Mikael!

Ela chamou, no intuito de acordá-lo. Ela não queria chamá-lo, mas estava na hora de se levantar e ir para a escola.
Ele apenas resmungou.

– Mikael, acorde!

Chamou novamente, desta vez o cutucando com as pontas dos dedos sobre o ombro nu dele. Ele abriu os olhos. Devagar e sonolento, ele bocejou e sentou-se na cama junto dela. Passou as mãos pelos cabelos cor de ébano e a encarou.

– Bom dia, Nelly!

Puxou-lhe para um beijo no rosto que a deixou corada.

– Bom dia!

Sorriu para ele.

– Preciso me arrumar pra escola.
– Certo.

Concordou ele, assentindo.

– Eu te espero.
– Você não vai embora?
– Quer que eu vá?
– Não, quero que me acompanhe, mas…
– Só preciso de uma escova de dentes e lavar o rosto.

Disse ele, sorrindo. Nelly sorriu de volta, pegou sua mão e ambos saíram juntos da cama, de mãos dadas rumo ao banheiro. Adentrando o banheiro, ela lhe deu sua escova de dentes arqueando uma sobrancelha.

– Não tenho nojo.

Disse ele, aceitando e batizando a escova com creme dental em cima da pia. Ela se afastou um pouco e buscou no closet seu uniforme e roupas intimas. Voltou ao banheiro, quando Mikael já enxugava o rosto numa toalha. Ele beijou a boca dela, o hálito refrescante adentrando o interior de sua boca. Mas tão breve ele soltou-se dela  e caminhou de volta ao quarto sem dizer mais nenhuma palavra. Ela trancou-se no banheiro, ligou a água quente e tomou um bom banho, rápido e tranquilizante. Vestiu suas roupas, escovou os dentes na escova semi usada por Mikael e deixou o banheiro em pleno vapor.
Mikael estava deitado folheando o diário em cima da cama.

– Ah, você quer ir já?
– Não vai tomar café?
– Não, hoje é dia da Loren levar alguma coisa pra comer. Segundo ela, vai ser tão boa quanto a minha mãe na cozinha. Ela me faz de cobaia porque sabe que eu sempre saio atrasada.
– Loren?
– Sim, você a conhece?
– Não, é sua amiga?
– Minha melhor amiga.
– Tudo bem, então vamos, você come algo com sua amiga.

Mikael levantou-se, entregou o diário a Nell e subiu no parapeito da janela.

– Te espero lá em baixo!

Anunciou antes de pular a janela.
Nelly suspirou, então pegou sua mochila rapidamente e correu quarto a fora, mal dando tempo de sua mãe chamá-la para o café da manhã.
Encontrou Mikael na porta de sua casa e juntos caminharam pelas ruas de Londres até os portões de Ashford.

♣ ♣ ♣

Assim que botaram os pés dentro de Ashford, todos já começavam a notar Antonella e Mikael andando de mãos dadas, o que deixava Nell totalmente constrangida e ao mesmo tempo amável. Ela percebeu, Mikael soltou o ar de seus pulmões que pareciam retraídos até estarem lá dentro. Ela queria lhe perguntar suas preocupações, mas não houve tempo, até que ele lhe soltasse a mão quando avistasse uma Loren e um Aaron. Ela também queria lhe perguntar o problema com os amigos de Nell, mas ele lhe beijou a cabeça, despediu-se dizendo que tomaria um bom banho e explicou que retornaria no intervalo para vê-la. Ela apenas assentiu, mas não deixou de notar os olhares tensos que trocavam as três pessoas mais importantes da vida dela.

– Booooooom dia!

Disse Nelly aproximando-se dos amigos num sorriso amistoso.

– Está de caso com o aluno novo? Como é o nome dele mesmo, Aaron? Um tal de Mijael? Milanel? Mishael?
– Mikael!

Corrigiu Nell.

– Ah, Mikael. Está de caso com Mikael?
– Você o conhece?
– Não sei, nunca o vi na minha vida. Sei lá, só não fomos com a cara dele.

Explicou Loren.

– Ele é bem estranho, Nelly, parece não se importar com nada, desde que chegou… é estranho!

Replicou Aaron.

– Bom, ele só é um pouco reservado, mas não é algo sério, eu acho.
– Seja como for, Nell, não se aproxime de Mikael. Eu não sinto coisas boas a respeito dele. Viu como nos encarou?

Disse Loren, deixando pra lá e abraçando a amiga. Sorrindo feito uma louca, ela tirou uma tupperware de dentro da bolsa transversal com bolo doce. Os olhos de Nell e Aaron brilharam na hora.

– Vamos comer?
– Com certeza vamos! – respondeu Aaron.

Os três amigos caminharam em direção a uma mesa no jardim, onde se serviram de mini tortas doces e bolos feitos pelas mãos de fada de Loren. O estômago de Nell, que roncava, agradeceu. Ela também serviu chá de uma garrafa térmica em copos de plastico que trouxera.

-Ei, parece que vamos ter aula de janela.

Comentou Aaron. Nell, com a boca cheia, engoliu tudo e disse:

– Por quê?
– Apenas sinto! – Sorriu Aaron. E não demorou para que uma irmã viesse alertar os jovens, ali, de que não teriam aula no primeiro período e que poderiam zanzar pela escola sem incomodar ninguém. Aaron sorriu em vitória.

– Você é impossível, Aaron! -Disse Nell, rindo e ao mesmo tempo impressionada.

– Viram? Eu disse!

– E agora, o que vamos fazer? – Perguntou Loren, entediada.

– Tenho que ir na biblioteca fazer uma pesquisa. Querem ir comigo?

– Uma pesquisa sobre o que?

– Eu estou procurando alguma coisa que fale sobre os anjos.

– O quê? – Aaron engasgou com o chá e olhou esquisito para Loren, que mantinha sobre ele um olhar impassível e começara a batucar o pé no chão.

– Quero dizer… – limpou a garganta -… por que quer saber sobre anjos, Nelly?
– Não sei, eu fiquei pensando sobre esta escola, ouvi as irmãs comentando algo sobre a escola ter sido construída por anjos. Achei que seria uma pesquisa interessante. O que vocês acham? Acreditam nisso?
– Em anjos? – perguntou Loren. – Claro que não, se eles existissem mesmo, assim como vampiros e lobisomens, eles estariam aqui.
– Mas você acha que eles não se revelariam tão simplesmente?

Loren engoliu em seco, Nelly percebeu que havia algo de errado sobre o assunto.

– Não sei, acho besteira acreditar nisso.
– Bom, de toda forma, eu vou dar um pulo na biblioteca, quem sabe não acho uns livros de romance de época? Há tempos estou procurando por um que me cative.

Loren apenas assentiu enquanto Nelly se levantava e ia em direção a biblioteca. Assim que ela entrou, deparou-se com a irmã Celestine, que lhe deu um breve sorriso e, se arranjando no fundo da sala, no ponto mais isolado, abriu o diário sobre a mesa e começou a folheá-lo.

“Querido Diário, ele tem muito medo. Às vezes chega a ser assustador o medo que ele tem nos olhos. Minha irmã constantemente me pede para ficar longe de Mikael, mas eu o amo tanto que chega a doer. Eu não me importo se eu morrer. Acho que nunca me importei, na verdade. Acho que o que importa mesmo é que ele termine a porcaria do convento. Um lugar onde estaremos todos seguros.”

– Um lugar onde estaremos todos seguros? – Queixou-se Nelly, intrigada com o que aquele trecho realmente queria dizer. Ela prosseguiu, sem muito sucesso, sem descobrir o que realmente aquilo significava e, assim, procurou a irmã Celestine, lhe mostrou o trecho no diário e lhe perguntou o que aquilo significava.

– Acho que está perguntando à pessoa errada, querida. Você deve perguntar isso a Mikael. Ele se sentiria ofendido, provavelmente, se eu lhe contasse. Não sou de grande ajuda agora, mas procure-o, ele irá te explicar.

Sorriu-lhe a senhora. Nell, em agradecimento, beijou-a na testa e partiu para o pátio. Mas durante aquele dia, Mikael não aparecera como havia prometido, o que machucava Nell por dentro e deixava suas duvidas azedarem no estômago. Ela partiu pra casa sozinha.

♦♦♦

NOTA: Galere, mil perdões pelo meu atraso, ja é quase dia 16 e só estou postando o capítulo agora. Eu realmente sinto muito, mas tive tanto, tanto, tanto, o que me ocupar hoje que só deu tempo por agora. Espero que tenham gostado do capítulo e na semana que vem , veremos qual será o desenrolar desta histórias que aos poucos se mostra tão enigmática. Um beijão a todos e um ótimo restinho de semana ❤

Promessas de um Arcanjo – Capítulo 08

 

Meu coração está partido
Mas tenho um pouco de cola
Me ajude a inalar
E consertá-lo com você
Vamos flutuar por aí
E ficar sobre as nuvens
– Dumb – Nirvana

arte para promessas1

♦♦♦

Durante a madrugada fria, Mikael dormia sobre a cama da jovem Nelly, o sono dos anjos, se assim poderia dizer, pois ele estava aquecido e na cama da mulher que amava e desejava por tantos anos que mal poderia contar. Mas Nell não estava na cama, ela observava a noite crua pela janela do quarto, seu sono havia partido logo após acordar de um sonho, ela não queria pensar no sonho. Nell não queria sentir dor de novo. Não ousou chamar por Mikael, ele estava tão lindo e tão intocável dormindo quanto uma estátua de mármore, eterna em sua brancura.
Mas o que ela não sabia era da ligação que ambos tinham um com o outro, não demorara para que ele abrisse os olhos, passasse a mão pelos lençóis e percebesse que ela já não estava mais ali. Assustado, ele sentou-se e viu-a sentada no parapeito da janela. Ele levantou. Os pés descalços sentindo a maciez do carpete, a pele desnuda do tórax arrepiando-se num segundo ao aproximar-se e entrar em contato com a pele dela.

-Não consegue dormir?

Perguntou ele beijando-lhe a orelha com carinho. Ela virou-se e olhou no fundo de seus olhos.

– Não!
– Quer que eu vá embora?
– Também não.

Seu olhar baixou, ela encarou a fênix no peito dele e tocou-a com a ponta dos dedos. Ela beijou o pássaro de fogo com ternura, algo que gostaria de ter feito antes, mas agora sentia-se realizada por ter esperado um pouco.

– Mikael, o que nós somos?
– Ouça, somos o que somos e nos amamos por isso, amanhã nós conversaremos melhor sobre todas as dúvidas que você tem agora, mas precisa dormir, descansar. Venha, eu posso te ajudar a cair no sono. Eu sou um anjo, mas não sou tão mal assim, sou?

Ele a agarrou, beijou-a loucamente a tirando do chão. Ela não sabia se era bom ou ruim, mas estava entregue. Enroscou-se nele e deixou que ele lhe deitasse na cama, em instantes Nelly estava acesa como a chama de uma fogueira e ansiava por mais, ansiava por ele.

– Mikael!
– Olhe para mim, amor, olhe nos meus olhos.

Ela obedeceu.

– Eu te amo, mas agora eu não posso avançar com você, eu quero que isso dure, não posso te perder. Já aconteceu de eu te perder enquanto nos amávamos desta forma, eu não quero que isso se repita. Você precisa dormir agora, e sonhar com coisas boas.
– Também te amo!
– Eu sei, eu sempre soube. Agora, ouça-me: durma querida, durma.

Mikael começou a cantar enquanto beijava todo seu rosto, era uma língua estranha, mas o mais esquisito disso era que Nelly conseguia entender perfeitamente o que significava cada palavra que saia da boca do amado.

Minha pequena estrela
Eu quero que você brilhe para lá dos séculos
Para que eu nunca me perca
Por que você é o meu guia,
A sua luz guia-me pela escuridão
E agora, deixe-me guiá-la para o mundo dos sonhos
Onde nada pode nos ferir
Onde eu sou seu e você é minha

No segundo seguinte, ela estava dormindo, dormindo nos braços dele novamente, e ele estava alegre, alegre pelo emaranhado de cabelos pesados, lisos e compridos que se formavam sobre seu peito, cabelos dela, cheirosos e macios, mais até que suas próprias asas. Ele beijou-lhe as têmporas e pôde perceber como o rosto dela era delicado, maçãs do rosto acentuadas, lábios cheios e vermelhos, comestíveis e saborosos. As sobrancelhas eram um pouco arqueadas e os cílios finíssimos. Ele beijou-lhe cada pálpebra, depois a pontinha do nariz empinadinho e pequeno, por fim a boca, tão desejada boca vermelha. E ele tocou-lhe as costelas, arqueou o corpo dela e beijou-lhe o coração, um pedaço de pele exposta acima dos seios fartos.

-Sonhe, Antonella, sonhe com o jardim, onde estaremos juntos passeando sobre os perfumes das tuas flores favoritas. Eu te guiarei, seu caminho é onde o meu se encontra.

Ele a deitou novamente, cobriu até o queixo e permaneceu ao lado dela até que ele próprio caísse no sono novamente, ele se encontraria com ela num mundo que ele criou para ambos, um mundo onde só eles dois poderiam entrar, um mundo seguro.

♦♦♦

NOTA: É galere, mais um capítulo postado, eu escrevi meio que na correria, então não reparem estar tão curtinho, no próximo capítulo falaremos um pouco mais sobre os melhores amigos da Nelly e a escola, então não desistam de mim e de Promessas de um Arcanjo. Espero que tenham gostado e até a próxima semana ❤